The real challenge of cinema

Marcos Alberto Sant'Anna Bitelli

Portal Exibidor

Nos últimos dias com diversos anúncios de relevantes produtores de filmes sobre o papel das plataformas de Video-on-demand nos futuros lançamentos, oráculos e videntes têm prenunciando o fim do cinema.
O cinema não vai acabar.
O constante desafio entre novas e velhas tecnologias vem desde a eras antigas como destruidor de valor. A experiência do cinema é única, é social, é coletiva.
O digital, o VoD estão aí e vieram para ficar mas não substituirão o cinema.
Mais volume de conteúdos serão produzidos e com o tempo os segmentos de mercados de audiovisual e tecnologias se regulam porque ninguém vai deixar dinheiro na mesa, por capricho.
O verdadeiro desafio do cinema não é a nova tecnologia, mas a lógica imobiliária sobre qual ele se funda.
Enquanto grandes espaços imobiliários, notadamente nas grandes cidades, o modelo de alocação das unidades em Shopping Centers é a grande armadilha para a travessia entre o momento de afastamento temporário do público e a capacidade plena do público voltar a transitar e permanecer em espaços coletivos e fechados.
Apesar da população em todos os países se aglomerar quando quer, em praias, botecos, bares e festas ou porque precisa, em transportes coletivos mal estruturados, estações lotadas e serviços públicos colapsados, o cinema é uma vítima simbólica, como fizeram também, no Brasil com as escolas.
Todavia isso não será para sempre. Haverá um tempo de estagnação de um lado e outro a necessidade de grandes produtores de conteúdos lançarem seus produtos como der, porque os cinemas não estão, em todos os territórios, nas mesmas condições de fazer lançamentos exclusivos e receber grandes públicos.
Os distribuidores estão optando entre não lançar os filmes em cinema e ir direto ao VoD, outros em lançar com uma janela curta e alguns em lançar junto cinema e plataforma proprietária. Para o cinema resta acreditar que nem todo mundo assinará todas as plataformas tendo acesso a todos os conteúdos ou que mesmo assinando todas elas, ainda haverá o interesse ao passeio de ir ao cinema.
Para que o cinema possa entender como é conviver com a nova lógica de janelas (ou sem elas) ele precisa poder viver essa experiência e ai assim se redescobrir. E esse tempo quem precisará dar ao cinema é, em última instância, no Brasil e no mundo, o setor imobiliário.
O grande vilão é a relação de ocupação dos cinemas com os donos dos imóveis, muitas vezes Shoppings, governados pela lógica de investidores ou fundo de investimentos.
O custo de ocupação dos cinemas é formado pela remuneração do locador (o aluguel), normalmente uma percentagem de faturamento com um mínimo garantido, (que de mínimo nunca tem nada, mas é na prática a média do aluguel mensal esperado), mais o rateio do condomínio, mais o reembolso de tributos territoriais e prediais, e outros penduricalhos que muitas vezes são adicionados, para suporte de ar-condicionado, remoção de lixo e resíduos etc. Sem o movimento habitual, pelo tempo dessa travessia, o impasse entre os proprietários do imóvel e as salas de cinema é o maior adversário do cinema. Talvez mais que a alteração dos modelos comerciais de lançamento.
O grande desafio, portanto, é como negociar no varejo, ou seja, empreendedor a empreendedor, uma ponte entre o presente e o futuro para que não haja solução de continuidade até a volta do público e dos filmes. Se os locadores dos cinemas não entenderem o cinema como um equipamento obrigatório do Shopping Center, e olharem o espaço com simplesmente metragem quadrada para locação de lojas, em competição com outros tipos de negócio, ai sim mora o grande perigo da sobrevivência até a outra margem.
Aquele empreendedor que conseguir segurar a unidade cinematográfica vai sair vitorioso, ao final, mantendo o equipamento que forma o conjunto de atratividade do Shopping em relação ao empreendedor ganancioso que forçar a desmobilização dos cinemas para oferta como espaço locável.
Não se pode esquecer que com a repercussão econômica negativa da pandemia, muitos lojistas, restaurantes e fast food, pensarão duas vezes em entrar para um modelo de Shopping center no futuro próximo.
Aqueles que estavam nas ruas, em momentos de epidemia ou pandemia saíram-se menos prejudicados, seja pelos menores custos de ocupação, seja pela maior liberdade de acessarem, de abrirem, de horários de funcionamento.
Concluindo, a grande solução do desafio do futuro do cinema está na compreensão dos empreendedores imobiliários que eles precisarão “bancar” os cinemas no período até o encerramento da pandemia e retomar os contratos à luz da nova ordem econômica aplicável ao cinema lá na frente.
A atitude implacável contra a tolerância necessária ao cinema poderá resultar em perdas para os dois lados, porque o próprio modelo de varejo em Shopping Center terá um rearranjo da relação de oferta procura dos lojistas nos anos vindouros.